A Palavra

A generosidade é irma da justiça.

A generosidade é irma da justiça. Ser generoso implica, às vezes,  abrir mão de alguma coisa para alcançar bens maiores e perenes ou simplesmente para manifestar a nobreza de espírito, da gratuidade mesmo de Deus, poderíamos dizer. Porém,  onde há transgressão ou incompreensão dos limites de quem se beneficia querendo sempre mais e além da conta, aqui a generosidade do benfeitor é maculada,  pois o homem generoso é também justo. A generosidade não compactua e nem é cúmplice da injustiça. Um favor recebido ou uma dádiva manifesta por maior que seja o coração do benfeitor carecerá sempre de um muito obrigado . O Cristo,  ao perguntar para o único leproso que veio aos seus pés para agradecer a sua cura,  educou também  o coração dos outros nove que não souberam agradecer. Nosso Senhor sempre foi o dispensador de todos os bens do mundo inteiro e nunca deixou de agir com infinita liberalidade.  Façamos nós o mesmo, sendo amigos da generosidade, mas não esquecendo do que nos obriga  sua irmã, a justiça. O amor generoso não transgride a justiça.

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Pe. Silmar Alves Fernandes

Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé

Rio, 07 de Abril de 2017


Homilia – Missa de 7º dia pela alma do

Dr. Ivo Hélcio Jardim de Campos Pitanguy

Em nome do Pai e do filho e do Espírito Santo. Amém.

Prezadíssimos Familiares do Dr. Ivo Pitanguy,

 Prezados Senhores,

Hoje, nesta Santa Missa, quero despretensiosamente evocar com uma mirada sacerdotal alguns dos muitos atos e momentos de vida memoráveis de nosso inesquecível Dr. Ivo Pitanguy, que comoveram minha alma de padre e os olhos da alma de muitos.

Dostoievsky disse a célebre frase “a Beleza Salvará o Mundo” em sua obra O Idiota. No romance “Os Irmãos Karamazov” esta questão é aprofundada: Um ateu Ipolit indaga ao príncipe Mynski como “a beleza salvaria o mundo”? O príncipe permanece em silêncio, porém segue para perto de um jovem de 18 anos que agonizava. Quando dele se aproxima, aí permanece cheio de compaixão e amor até a sua morte. O entendimento que nasce desta cena é o seguinte: a beleza pode nos salvar se há amor que nos faz ter compaixão com as dores da vida do meu semelhante. Dr. Ivo Pitanguy amava a beleza em seu valor mais tênue, denso e espiritual, pois procurava revelar o seu rosto humano mais digno, na inquietude solidária e paciente de querer compreender a vida de quem lhe batia à porta e trazia o seu mundo nem sempre bonito, bondoso e agradável, mas muitas vezes cheio de medos, aflições e feridas. E igualmente Dr. Ivo portava com sua perícia de cirurgião-plástico a santa obstinação que espera encontrar uma espécie de transcendência para um não sei quê inscrito no coração de cada homem.

Ouçamos o próprio pensamento de nosso nobre médico Pitanguy ecoar: “O campo do conhecimento que escolhi encerra uma finalidade transcendente, que é a tentativa de harmonizar o corpo com o espírito, a emoção com a razão, visando estabelecer um equilíbrio interno que permita ao indivíduo reencontrar-se, reestruturar-se, para que se sinta em harmonia com sua própria imagem e com o universo que o cerca”.

Dr. Ivo com seu trabalho contínuo e incansável foi alguém extraordinário que dignificou nossa pátria, e que até às vésperas de sua entrada na eternidade manteve a chama da vida acesa por sua brilhante carreira de cirurgião plástico, projetando o nome do Brasil no exterior de maneira indelével por sua ciência e atuação incomparáveis.

Com brio superior em nosso pensamento, enfatizamos que Dr. Ivo Pitanguy iniciou sua formação acadêmica em nossa cidade carioca, entre nós, no então Hospital do Pronto-Socorro, hoje nosso atual Hospital Souza Aguiar. Depois seus estudos de especialização singraram e abarcaram outros países, como os Estados Unidos, Inglaterra e França. Inumeráveis foram suas iniciativas pioneiras, como a criação do Serviço de Queimados do Hospital do Pronto-Socorro e o primeiro serviço de cirurgia de mão e de Cirurgia Plástica Reparadora da Santa Casa. E quando inaugurou a Clínica Ivo Pitanguy em 1963, pensou em sua integração com a 38ª Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, que abriu a possibilidade para engendrar a formação profissional e acadêmica, sem olvidar também o atendimento aos pacientes de baixa renda. Presidiu muitíssimas conferências, quase duas mil, e mais explanações cirúrgicas em infindáveis cursos de algumas universidades americanas e europeias mais prestigiosas como Harvard, Madri e Paris, entre outros eventos a nível nacional e internacional, nos quais ele participou e se distinguiu. Todos nós decerto conhecemos o alcance do voo de sua relevante notoriedade e a visibilidade pública de sua exemplar competência científica para a grandeza de nosso país.

Homem de raras qualidades, uma natureza enriquecida por dons da natureza e da graça, que se entrelaçavam, fazendo dele um cirurgião plástico, que exerceu a medicina com paixão, fazendo de sua profissão sua razão de ser.

 O Santo Padre, Papa João Paulo II distinguiu-o em 1989 com o Prémio Cultura da Paz pelo trabalho com os mais desfavorecidos. Isto me fez recordar uma questão relacionada aos mais humildes, que fora assim colocada numa entrevista concedida por Dr. Ivo ao site Expresso no ano de 2012, em Lisboa. Disse o repórter ao Dr. Ivo: “ Tem sempre a preocupação de referir o seu trabalho junto dos mais desfavorecidos. Mas não foram estes que o tornaram famoso…” Nosso Cirurgião com naturalidade lhe respondeu:“É um grande engano. O que me fez famoso é o conjunto de tudo o que fiz. Todos os ícones são temporários. Por cada pessoa conhecida que operei, passaram por mim 20 desconhecidas.”

Na sua autobiografia continua o mesmo repórter, o senhor assim escreveu: “Cada qual tem um momento na vida realmente importante que modifica o curso do seu destino”. No seu caso foi um dramático incêndio no Grande Circo Norte-Americano, em Niterói, em 1961, com um número assustador de vítimas: 2500 feridos e 500 mortos. Foi esse o momento que o fez ver a sua atividade como uma missão? Nosso tão caro cirurgião lhe respondeu:“Criamos um serviço de atendimento na enfermaria da Santa Casa que se estendeu por mais de seis meses. Lembro-me de que na época ainda pairava a sombra da bomba atômica e dizia-se, textualmente, que no caso de uma bomba só se deveriam tratar as pessoas muito feridas. Isso quer dizer que se deveria abandonar parte da população. Em Niterói tivemos de gerir uma situação que nunca se tinha vivido. Foi até hoje a maior catástrofe em recinto fechado, das coisas mais impressionantes que vivi. Era um circo, havia 500 crianças queimadas. Mostramos ao mundo social a importância da cirurgia plástica e isso foi decisivo.”

 

Sim, prezada família Pitanguy, prezados senhores, sabemos pela vida de Dr. Ivo à frente de tantas e tantas pessoas, por ele socorridas, curadas de queimaduras deformantes e que por suas mãos “quase mágicas” puderam redescobrir o sentido da vida, a dignidade de seres criados à imagem e semelhança de Deus, e restaurados por sua competente perícia e incansável caridade.

Só Deus pode “criar”, infundir o espírito da vida a todas as criaturas, com seu “sopro criador”, mas a um cirurgião plástico é dada – poder-se-ia dizer – em proporção humana, uma “centelha” de tal poder criador, pois um cirurgião “recria”, restaura corpos criados por Deus tantas vezes marcados por graves deficiências genéticas ou destruídos por tragédias humanas.

Nossas palavras são insuficientes para expressar toda a grandeza de sua alma, a extensão de seu saber, o quilate de sua personalidade e a incomparável competência com que exerceu sua profissão, fazendo da medicina plástica seu sacerdócio, seu campo de missão e de entrega, a qual dedicou toda a sua existência.

O grande teólogo alemão-estadunidense e filósofo da religião Paul Tillich escreve, em um de seus livros, que “o sacerdote e o médico possuem um denominador comum, resgatar no irmão a coragem de Ser”. Dr. Ivo Pitangui, encarnando este ideal, gastou toda a sua vida, aplicou com tenacidade seus conhecimentos, “resgatando em tantos irmãos a coragem de Ser”, restaurando corpos e rostos, salvando vidas, infundindo em tantos corações a alegria de “reviver”.

Não posso nem quero deixar de mencionar aqui o deleitoso e aprazível discurso de recepção do escritor Carlos Chagas filho quando nosso mineiro Professor Ivo Pitanguy tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em 24 de setembro de 1991. Cito apenas um parágrafo:

 

Sr. Ivo Pitanguy,

 

 sois, na verdade, um pioneiro em todas as atividades que exerceis. No momento em que o ambiente se torna uma preocupação máxima da sociedade mundial, e o problema se apresenta tanto mais grave quanto menos desenvolvido é um país, fostes uma das primeiras pessoas que eu ouvi falar em proteção do ambiente e tomastes vosso tugúrio marítimo em um local de proteção ambiental e de conservação de espécies vegetais e animais raras. Esta atitude não é um modismo. Ela vem dos vossos tempos de menino, quando já apreciáveis a Natureza. Assim, quando íeis à Serra da Piedade, colhíeis, com o maior cuidado, flores e plantas, flores que leváveis para casa para homenagear vossa mãe e plantas sobre as quais se debruçava vossa curiosidade juvenil. Passar da admiração de plantas e flores à sua proteção é um dos melhores sinais de Cultura que conheço. Mas os animais foram sempre uma de vossas preocupações. Desde cedo, procurastes conhecê-los, e, em Belo Horizonte, até hoje conta-se a história de um menino que, sem medo, passeava dentro de casa ou pelo jardim, apavorando a todos com uma jiboia. Este menino era Ivo Hélcio Campos Pitanguy.

            Prezados filhos: Ivo, Gisela, Helcius e Bernardo; prezados netos: Ivo, Antonio Paulo, Mikael, Pedro e Rafael; prezada irmã, Jacqueline, prezada e digníssima esposa Sra. Marilu, a quem Dr. Ivo sempre se exprimiu e cultivou como doce companheira de sua jornada, dos píncaros celestes, Deus continua a salvar o mundo de toda indigência e desatinos, através de homens como vosso pai, vosso avô, vosso irmão e vosso esposo, pois a Beleza, em sua mais alta e transcendental compreensão foi sua humana e divina devoção. Agora ele foi acolhido pela Eterna Beleza.

            Ao rezar hoje esta Santa Missa, ao Deus que habita o coração de todo homem, possa sua alma bendita receber o prêmio de seu grande labor e nos céus insondáveis contemplar a Beleza em seu perene fulgor.

 

            Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

 

Pe. Silmar Alves Fernandes

Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé

Rio, 12 de Agosto de 2016

 


Em que consiste a devoção dos cinco primeiros sábados do mês em honra à Virgem de Fátima?

Em 1917, Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos de Fátima e, entre promessas e segredos, alguns revelados há pouco tempo, a Virgem prometeu a Lúcia que ela viveria muito tempo, a fim de propagar no mundo a devoção ao Seu Imaculado Coração.

De fato, no dia 10 de dezembro de 1925, Nossa Senhora apareceu à irmã Lúcia, junto com o menino Jesus, e ensinou-lhe a prática dos cinco primeiros sábados do mês em desagravo às ofensas cometidas contra a Sua dignidade.

Para entender por que se deve desagravar o Coração de Maria, é preciso entender que a gravidade de uma ofensa é proporcional à dignidade da pessoa que se ofende. Certos pecados são considerados muito mais graves, pois atingem pessoas que nos amam de forma especial e às quais devemos, portanto, uma honra maior. É o caso dos pecados cometidos contra os pais, que são proibidos pelo quarto mandamento: “Honrar pai e mãe”.

Se é grande a dignidade dos nossos pais terrestres, quanto maior é a dignidade da Virgem Maria, nossa Mãe celeste! Santo Tomás de Aquino chega a dizer que, bem “a beata Virgem, por ser a Mãe de Deus, tem uma certa dignidade infinita, proveniente do bem infinito, que é Deus” [1]. É assim porque Maria Santíssima está em uma ordem diferente daquela em que estão todas as outras criaturas. Nós, se na amizade com Deus, estamos na ordem da graça; os santos e os anjos estão na ordem da glória; a Virgem Maria, no entanto, está no mistério da “união hipostática”: tendo gerado a humanidade de Nosso Senhor, que é Deus, com razão ela é chamada Mãe de Deus, “habent quandam dignitatem infinitam – dignidade de certo modo infinita”. Por isso, quando se ofende a Nossa Senhora, cria-se uma imensa desordem no mundo, porque se deixa de reconhecer as maravilhas que Deus fez em Si [2].

Mas, por que cinco sábados em honra à Virgem de Fátima? Anos mais tarde, em 1930, a pedido de um de seus confessores, a irmã Lúcia explicou que são cinco os sábados desta devoção porque são também cinco as principais ofensas cometidas contra a dignidade de Nossa Senhora: primeiro, as cometidascontra a Sua Imaculada Conceição; segundo, as contra a Sua virgindade; terceiro, as contra a Sua maternidade divina; quarto, as ofensas de quem ensina crianças a desprezarem e terem ódio da Virgem; e, quinto, as ofensas feitas a ícones de Nossa Senhora.

Para reparar essas ofensas – que atingem a dignidade de certo modo infinita de Maria e a própria majestade de Deus –, no entanto, é necessária a ajuda divina. Por isso Nossa Senhora aparece à irmã Lúcia e lhe indica o que os homens devem fazer para desagravar o Seu Coração:

“Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que todos aqueles que durante 5 meses, ao 1.º sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia meditando nos 15 mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.” [3]
Em outra ocasião, a irmã Lúcia:

“Apresentou a Jesus a dificuldade que tinham algumas almas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de 8 dias. Jesus respondeu:”
“- Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e que tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.”
“Ela perguntou:”
“- Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?”
“Jesus respondeu:”
“- Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a 1.ª ocasião que tiverem de se confessar.” [4]
A Virgem Santíssima pede à humanidade este ato de desagravo pois sabe o mal que é causado no mundo quando se ofende o Seu Imaculado Coração. Tem consciência, ao mesmo tempo, do imenso bem que recebem as almas que prestam a devida veneração a Si, de tal modo que, assim como o quarto mandamento é acompanhado da promessa de longevidade – “Honra teu pai e tua mãe para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus” [5] –, a honra à Mãe de Deus, muito mais que a prosperidade terrena, alcança a salvação eterna.

Pe. Paulo Ricardo

Referências

Suma Teológica, I, q. 25, a. 6, ad 4
Cf. Lc 1, 48-49
Memórias da Irmã Lúcia, p. 192
Ibidem, p. 193
Ex 20, 12

Rio, 10 de agosto de 2016.


DOM ORANI JOÃO TEMPESTA, CARDEAL NOMEADO PELO PAPA FRANCISCO

Padre Silmar Alves Fernandes, pároco da Antiga Sé

 

Dom Orani foi nomeado Cardeal pelo Santo Padre, Papa Francisco, pelo seu serviço alegre e feliz aos mais pobres. Desde quando aqui chegou, eu mesmo presenciei sua subida a morros, esteve nas comunidades mais empobrecidas, visitou desde hospitais, cemitérios e universidades, nunca se esquivou de estar com todos que lhe procuravam, entre outros lugares e circunstâncias prementes da nossa Cidade, como o grandioso e belo evento da nossa fé cristã a Jornada Mundial da Juventude em julho de 2013. Sempre compreendeu os seus ministérios como serviço, nunca como poder, legitimando assim o que se espera de um Pastor. Deus seja louvado por esta bela escolha!

Caríssimo D. Orani, tenho a clara certeza que o senhor esta acolhendo esta graça com a mesma simplicidade pertinente ao seu caráter, que sempre foi um grande sinal para aproximarmo-nos do senhor sem rodeios e sem cerimônias. Receba o meu abraço e me dê a sua benção.

Papa Francisco, Dom Orani e Eu

Rio, 12 de janeiro de 2014.

 


OS DIAS DOURADOS DO PAPA FRANCISCO

Padre Silmar Alves Fernandes, pároco da Antiga Sé

 

Acordei na segunda-feira da vinda do Papa ao Rio sem pressentir como seria. Era um dia frio e  cinza. Porem, no táxi da Av. Chile, onde me encontrava, comecei a ver raios dourados nos jovens que se aglomeravam pacificamente com seus trajes coloridos na frente da Catedral. Suspirei. Sorri. E um não-sei-quê de paz infinita tomou conta do meu coração, e me lembrei da liberdade boa que povoara nos balanços de minha infância. Era uma manhã douradamente colorida sob um céu gris.

Fui em direção à Antiga Sé, onde sou pároco, já abarrotada de jovens que entravam, rezavam  e saiam com um enlevo no rosto. Rezei a Santa Missa com o coração silenciosamente comovido. Pode uma ebulição ser tácita?

Fui organizando o meu dia para que tudo ocorresse com êxito na semana da Jornada Mundial da Juventude na paróquia: conversa com voluntários, entregas de kits do café da manhã para os peregrinos, catequeses, concertos sobre música e liturgia… e assim me preparei para ver do hotel Guanabara a chegada do Papa Francisco, na Av. Presidente Vargas.

Eu e um sacerdote amigo (nós também  ajudaríamos naquela semana  no Sumaré), fomos para a rua e ficamos na Candelária. Encontramos pessoas que igualmente queriam ver o Papa, mas, assim como elas, não tivemos sorte. Retornamos para o hotel, pois havia trabalho a organizar ainda e muitas idas e vindas ao Sumaré ao longo daquela cálida e efervescente semana da Jornada Mundial da Juventude.

Voluntários na Antiga Sé e eu e D. Orani Tempesta

 

Na terça-feira, preparamos o auditório do Centro de Estudos do Sumaré para receber os representantes da Casa da Moeda. Enquanto o  Papa permanecia recolhido na Casa Assunção, o Cardeal Tarcísio Bertone, Secretario de Estado de Sua Santidade, fez as honras devidas naquela ocasião solene da recepção da moeda cunhada  pela visita do Santo Padre. Era a face do Papa Francisco.

Na quarta, o Papa foi a Aparecida. Na quinta, fomos abençoados pela Santa Missa para os seminaristas, na Capela do Sumaré. Os muitos seminaristas ficaram sinceramente encantados. Foi um momento inaudito, de emoção suspensa.

Na sexta, tomamos parte na missa presidida com o Cardeal Bertone e pelo Monsenhor Guido Marini, cerimoniário do Santo Padre, na Capela do Sumaré. Depois, neste mesmo dia, após o café do Santo Padre, D. Orani nos conduziu ao encontro do Papa Francisco, na Casa Assunção, onde ele nos receberia para um momento exclusivo. Ficamos absortos pela ansiedade na expectativa deste encontro. Eis que uma, duas, três vezes ele se encaminhava em nossa direção, e o belo jardim de sua casa ainda nos separava. De repente alguém o chama no interior da casa. Alguma imprevisibilidade que surgia?

Na capela da Assunção: sozinho e com Irmã Terezinha, responsável pelo local

 

Esperando pela benção do Papa Francisco, estávamos Dom Orani, Cônego Jose Gomes e eu, além do casal Bertaldo e Kenia, que portava uma bela imagem de N. Sra. de Fátima, que faria a peregrinação pelo nosso país devido ao centenário da comemoração da aparição em Portugal. Eis que então ele vem com a naturalidade cristã de um nobre Pescador de homens. D. Orani pediu sua benção para a santa imagem. Ele parou diante dela, contemplou o seu rosto, fechou os olhos como quem faz um pedido, uma súplica, e a abençoa. Depois, D. Orani nos apresentou um por um. Ele olhou profundamente em nossos olhos. Ouviu o que cada um disse e nos pediu que rezássemos por ele e que fossemos sempre misericordiosos. Falamos pouco porque ficamos impactados com a sua humilde e intrépida presença.

Registros feitos na Catedral Metropolitana, onde do Santo Padre rezou missa

 

Foi uma breve audiência de 10 ou 12 minutos, quem sabe? Mas que pareciam ter durado uma hora intensa como um lampejo de eternidade. Saímos literalmente com aquela sensação  dos pés nas nuvens. O que Nossa Senhora teria providenciado naquele inaudito espaço de tempo? Foi indizível! Ele saiu pela porta de sua casa, se voltou novamente para nós e acenou com a mão e o rosto feliz, indo em direção ao Palácio São Joaquim, onde rezaria o Angelus, seu próximo encontro.

Registros do movimento no Sumaré, no último dia da Jornada Mundial da Juventude

 

E, diante destes inumeráveis encontros semanais com mais de 3 milhões de jovens, sacerdotes, religiosos, bispos e cardeais, a missa da abertura, a  via sacra, o Teatro Municipal, o calor da missa da Catedral e de envio em Copacabana, entre outros, fui algumas vezes à minha Antiga Sé. Lá, acompanhei a JMJ paroquial, absurdamente lotada como nunca houvera visto. E assim, numa semana em que vingava um tempo inclemente,  eu vi os dias dourados do Papa Francisco no Rio, com os jovens que a coloriram com gosto de um mundo novo.

Rio, 27 de agosto de 2013.